Como dirigir um CEO numa sessão de fotos | Alessandro Couto

Como dirigir um CEO numa sessão de fotos | Alessandro Couto

Como dirigir um CEO numa sessão de fotos

A maioria dos CEOs chega pra uma sessão de fotos do mesmo jeito: com pressa, um pouco de desconforto e a expectativa de resolver tudo em dez minutos. São pessoas acostumadas a controlar o ambiente, tomar decisões rápidas e seguir em frente. Ficar diante de uma câmera inverte essa dinâmica, e isso gera tensão.

A função do fotógrafo não é ignorar essa tensão. É trabalhá-la até que ela desapareça. E isso não se resolve pedindo pra pessoa sorrir ou relaxar. Se resolve pela relação.

Por que pedir pra relaxar não funciona

"Relaxa" é a palavra mais inútil que existe numa sessão de fotos. Ninguém relaxa porque alguém mandou. E um CEO, que passou o dia inteiro em reuniões de alta pressão, não vai mudar de estado porque o fotógrafo pediu.

O que funciona é criar as condições pra que a pessoa esqueça, mesmo que por alguns minutos, que está sendo fotografada. Isso exige um tipo de direção que não tem nada a ver com poses. Tem a ver com conversa, observação e timing.

O café antes da câmera

O café é o momento mais importante da sessão. Parece contradição, porque ainda não estou fotografando. Mas é ali que tudo começa. Durante o café, eu observo como a pessoa se comporta quando está à vontade: como gesticula quando explica algo, como posiciona o corpo quando está confortável com o que diz, como é o riso verdadeiro versus o riso social.

Essas informações definem tudo o que vem depois. Se eu percebo que o CEO é mais expressivo quando conta uma história, sei que preciso puxar conversa durante a sessão e fotografar enquanto ele fala. Se percebo que ele é mais contido e transmite presença pelo olhar, sei que o silêncio vai funcionar melhor que a conversa.

Cada pessoa tem um caminho diferente pra chegar no próprio retrato. O café é onde eu descubro qual é.

Direção sem imposição

A pior coisa que um fotógrafo pode fazer com um líder é tentar encaixá-lo num modelo. Braços cruzados, queixo levantado, mão no bolso, olhar pro horizonte. Essas fórmulas existem porque são fáceis de executar, mas produzem fotos que não dizem nada sobre a pessoa.

Meu método é diferente. Quando discordo de uma escolha do fotografado, seja de postura, de roupa ou de direção, eu sugiro testar a minha opção. Se a pessoa não preferir, sigo a escolha dela. Nunca imponho. O retrato é dela, não meu.

Essa abordagem funciona especialmente bem com executivos de alto escalão, que estão acostumados a serem ouvidos e respeitados. Quando percebem que o fotógrafo não está tentando controlá-los, baixam a guarda. E quando baixam a guarda, a fotografia constrói a percepção de liderança que a câmera não conseguiria fabricar.

O papel do assistente

Enquanto eu cuido da relação com a pessoa, o Gustavo cuida de tudo que é técnico: luz, equipamento, fundo, teste de exposição. Essa divisão não é logística, é estratégica. Se eu estivesse ajustando tripé e medindo luz, perderia o momento de conexão com o CEO. E esse momento é o que faz a diferença entre uma foto de crachá e um retrato de liderança.

Quando o CEO chega, a estrutura já está pronta. Ele não precisa esperar, não precisa ver bastidores técnicos, não precisa sentir que está atrapalhando uma produção. Senta, conversa, e em algum momento percebe que já estou fotografando.

Tempo real versus tempo esperado

O CEO quase sempre acha que precisa de dez minutos. Na prática, uma sessão bem conduzida leva entre 30 minutos e uma hora. Mas o executivo não sente esse tempo passar, porque não está posando. Está conversando.

O segredo é que a sessão não começa quando a câmera liga. Começa no café. E não termina quando eu digo "pronto". Termina quando eu sei que já tenho o que preciso, que já capturei a expressão real, a postura natural, o momento em que a pessoa esqueceu da câmera.

Isso exige paciência e leitura de gente. Tem sessão que o melhor retrato sai nos primeiros cinco minutos, porque a pessoa já chegou à vontade. Tem sessão que o melhor retrato sai nos últimos dez, quando a pessoa finalmente soltou o que estava segurando.

O que muda no resultado

A diferença aparece na hora que a empresa vai usar a foto. Um retrato de liderança bem dirigido funciona no relatório anual, no LinkedIn, na imprensa, na comunicação interna e no material de RI, porque mostra a pessoa de verdade. Já uma foto de cinco minutos com pose padrão funciona no crachá e para por aí.

A câmera só registra o que já estava lá dentro. Dirigir um CEO não é fazer ele parecer um líder. É criar as condições pra que a liderança que ele já tem apareça na foto. E isso começa muito antes do primeiro clique.